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Para conhecer melhor: Lygia Fagundes Telles

  • Foto do escritor: Lucas Humberto
    Lucas Humberto
  • 12 de jul. de 2018
  • 4 min de leitura

Foto: Portal Raízes.

''Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.'' 

O trecho acima vem do conto "Venha ver o pôr do sol", um dos mais famosos de Lygia Fagundes Telles, escritora que não por acaso, é conhecida como "a primeira dama da literatura brasileira". Ela nasceu em 19 de abril de 1923, e é considerada por críticos, acadêmicos e leitores uma das maiores escritoras do século XX. Sua estreia literária aconteceu com o livro de contos "Porão e Sobrado" lançado em 1938, que de cara foi bem recebido pela crítica. Em 1944 ela lançou Praia Viva, e o sucesso se repetiu. 


Em seu terceiro livro de contos, lançado em 1949 que recebeu o nome de O Cacto Vermelho, Lygia recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Entretanto, a obra que a tornaria nacionalmente conhecida foi Ciranda de Pedra, romance publicado em 1954. Mais tarde, a escritora atingiria o sucesso internacional com o livro Antes do Baile Verde, lançado em 1970. 


Teve seus livros traduzidos para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, e inúmeras edições em Portugal. Lygia recebeu vários prêmios durante a carreira, entre eles estão o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, em língua francesa, que a escritora ganhou pelo livro Antes do Baile Verde e o Prêmio Jabuti, pelo romance As Meninas. Em 1985, Lygia ocupou a cadeira dezesseis da Academia Brasileira de Letras. 


Lygia é homenageada pela OAB de São Paulo. Foto: OAB SP.

Além de premiada, Lygia é reconhecida também por outros grandes escritores. Clarice Lispector, por exemplo, afirmou que Lygia é uma das maiores escritoras de contos do país. Saramago, foi outro importante escritor que se rendeu aos encantos das obras de Telles, e disse:

"Recentemente estava eu a folhear alguns livros de Lygia Fagundes Telles que desde há muito me acompanham na vida, a afagar com os olhos páginas tantas vezes soberbas. Releio-os uma vez mais, palavra a palavra, sílaba a sílaba, saboreando ao de leve a pungente amargura daquele mel".

Em 2016, mais de 30 anos depois da última indicação brasileira, Lygia se tornou a primeira mulher brasileira a ser indicada para um prêmio Nobel.


Conheça agora algumas obras de Lygia Fagundes Telles.

 

1 - As Meninas 

O romance As Meninas traça um paralelo sobre a vida de três jovens que vivem em um pensionato em São Paulo durante a ditadura militar. Com histórias e personalidades completamente diferentes o leitor acompanha a história de Lia, Ana Clara e Lorena. 


Lia, é filha de uma baiana com um ex-nazista, vai para São Paulo estudar Ciências Sociais e se envolve na militância contra a ditadura. Lorena é filha de família burguesa, é culta, sonhadora e virgem, apaixonou-se por um homem casado e passa todo o romance esperando que ele a ligue. Ana Clara é linda e complicada, se divide entre o noivo e o amante traficante, é viciada em drogas e possui um passado difícil: quando jovem foi abusada sexualmente e a mãe era prostituta. 


Lygia é categórica em mostrar os sentimentos, pensamentos e memórias das personagens. A maior parte da obra se passa no quarto de Lorena, onde as jovens conversam sobre tudo. O livro é um ato de grande coragem, pois descreve uma sessão de tortura em uma época onde falar do assunto era totalmente proibido. 


O romance conta a história da jovem Raíza, que vive em conflitos internos e externos. De um lado há as memórias de seu pai, esse que se perdeu na bebida ao invés de enfrentar o mundo. Do outro lado há uma rivalidade – e de certa forma certa idolatria – com Patrícia, sua mãe.


Todos os conflitos parecem se amplificar com a chegada de André, um ex-seminarista que recebe ajuda de Patrícia, e os dois desenvolvem uma relação indefinida aos olhos de Raíza, o que é suficiente para inquietar a jovem. Em meio a um turbilhão de emoções e o intenso calor do verão, Raíza traça como objetivo chamar atenção do rapaz, e assim começa a cercá-lo e provocá-lo, sem se dar conta de que está se apaixonando pelo mesmo. 


Uma das grandes questões do livro, é refletir se Raíza irá preferir a vida segura no aquário ou os perigos do mar. 


3 - Venha ver o pôr do sol (cuidado! Podem haver spoilers)

Diferentemente dos dois acima que são romances, Venha ver o pôr do sol se trata de um conto, um dos mais famosos e conhecidos de Lygia, diga-se de passagem. A narrativa é centrada em Raquel e Ricardo, que foram namorados no passado. 


Ricardo então, propõe um último encontro pra ver o pôr do sol em um cemitério abandonado. Os dois caminham enquanto conversam sobre a vida, Raquel, que agora namora um homem rico, teme, sente medo, mas segue. O rapaz a conforta e conta a história de uma prima que o amou, mas que ele não amou de volta, e ela morreu quando tinha 15 anos. Ricardo sugere então, uma ida até o túmulo dessa prima. 


Entre arrepios de frio e medo, Raquel entra na capelinha que dá lugar ao túmulo, o escuro faz com que ela pegue um fósforo para poder ler o que está escrito na lápide. Maria Emília, a prima que morreu aos 15 anos, e que nasceu em 1892. Ela percebe rapidamente que a jovem nunca poderia ter sido namorada de Ricardo, mas já é tarde demais, assim que se vira, vê o rapaz com as chaves do túmulo na mão, e entre risadas ele fecha a porta, deixa Raquel presa e sai, enquanto houve os gritos da moça. 


Bônus: Para conhecer um pouco mais sobre a primeira dama da literatura brasileira, assista a um vídeo da escritora no programa Roda Viva!



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