Entrevista: Larissa Mundim, Nega Lilu e Literatura Goiana
- Giovanna Campos
- 25 de mai. de 2018
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2018
“Somos uma nanoeditora punk”
Nega Lilu, editora que atua há 5 anos na capital, afronta mercado tradicional do livro com vendas democratizadas e livros acessíveis pela internet

Ao chegar no Evoé Café com Livros, um pequeno café na Rua 91 do Setor Sul, Larissa nos recebe com um aperto de mãos e nos conduz até sua pequena sala, do lado esquerdo do espaço de recepção. Estávamos eu, repórter iniciante da Agência Moara, e Lucas Humberto, colega de turma do curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás e futuro jornalista. Larissa Mundim é escritora, jornalista, fundadora da Editora Nega Lilu e militante em prol da produção editorial independente. O ambiente, já de cara, nos familiariza e nos introduz ao mundo alternativo, autônomo e artístico da escritora.
"Nós somos uma nanoeditora, independente, nossa postura é punk, a gente não colabora com coisas que a gente não acredita. A gente quer se infiltrar e quebrar tudo "
Livros espalhados e amontoados pelos cantos nos revelam que houve uma feira no domingo no próprio Café. A feira é a E-cêntrica, uma estratégia de circulação dos próprios produtos de Larissa Mundim sem mediação e atravessadores. Aproveito a deixa e pergunto sobre o funcionamento das vendas. “A loja online permite distribuição no mundo todo. Mas, em espaços físicos, a gente não faz questão de distribuir nossos livros em lugares onde a nossa iniciativa não seja compreendida. Se a Fnac ou a Leitura querem me cobrar 50% do valor de capa, eu não vou conceder. Porque eles trabalham em um sistema, desenvolvido no século 19 e ainda alimentado pelas pessoas, que é uma cadeia produtiva que invisibiliza o autor. Uma pequena editora, como a Nega Lilu, tem essa missão. Nós somos uma nanoeditora, independente, nossa postura é punk, a gente não colabora com coisas que a gente não acredita. A gente quer se infiltrar e quebrar tudo”, ressalta Larissa com um sorriso de satisfação no rosto.
O que é o Coletivo e\ou
O discurso nos desperta ainda mais o interesse por esse mundo gráfico experimental e toda sua produção literária. Então, fugindo um pouco da rigidez de uma entrevista muito estruturada, deixo transparecer meu interesse. Perguntei como é o processo de seleção de novos autores a serem divulgados e Larissa, rápida e atenta, já se remetendo ao projeto do Coletivo e\ou, me responde. “A gente abre anualmente um edital para a seleção de novos autores e autoras que nasceram em Goiás ou residem no Estado. São inéditos ou éditos, com até 3 anos de atuação. E aí a gente seleciona contos, crônicas e poemas para compor duas antologias da coleção. Até o momento já foram lançados o volume 1, em prosa e o volume 2, em poesia. São projetos estimulados por leis de incentivo, porque sendo um processo democratizado do começo ao fim, é aberta uma chamada pública com um conselho editorial formado que pontua os autores e a partir dessa pontuação a gente seleciona os novos escritores”.

Romance Sem Palavras e novos lançamentos
Enquanto percorre com o olhar os quadros na parede, fala sobre o “Sem palavras”, seu romance de estreia. O livro traz como tema o envolvimento de Laura Passing (Nega) e Brisa Martin (Lilu), em uma relação marcada pela urgência e pela fragilidade dos encontros na pós-modernidade. A obra se constrói inteira a partir de correspondências. As paredes brancas, sobrecarregadas de quadros, trazem consigo uma série de conquistas, ações de body art, um filme baseado em um conto do livro, fragmentos de textos, entre outros diversos triunfos trazidos por seu romance epistolar, técnica literária que desenvolve a história através de cartas.
Depois de viajar ao início de sua carreira, Larissa volta ao presente falando sobre a cibercultura e suas influências sobre a escrita e leitura dos jovens. Além disso, ela aborda os efeitos sobre seu próprio processo criativo, visto que escreveu um livro inteiro com o formato em mensagens de texto. “Eu, sendo a autora que sou, curto muito mais o contato com o leitor do que a escrita da obra”, relata de maneira intimista e singela. Imersos na literatura de suas palavras, o tempo se eternizava dentro daquela pequena sala e até nos esquecíamos da aula que seria ministrada na próxima hora.
“Eu, sendo a autora que sou, curto muito mais o contato com o leitor do que a escrita da obra”
Eu e Lucas tentávamos absorver a enorme quantidade de projetos envoltos, quando Larissa ainda fala sobre mais um, o lançamento de sua primeira história em quadrinhos. Deu-se no começo do ano, abrindo o selo infanto-juvenil da Editora. Fica clara a sua inquietude diante da não produção, porque ela ainda corrobora: “Seguimos simultaneamente com 4 projetos editorias, dois para serem lançados em 2017 e outros dois no primeiro trimestre de 2018”.
O livro amarelo, pequeno e grandioso, ali no cantinho, me recordou a primeira vez que tive contato com sua obra. Foi ali mesmo, no mesmo café, com esse mesmo livro, em uma das feiras E-cêntricas. A ilustração e os versos de “Faz rs” me fisgaram para dentro do universo Larissa Mundim. Não pude conter minha curiosidade e perguntei se já existia outra obra em processo de produção. Em primeira mão, ela nos conta sobre as duas zinis que serão publicadas e sobre a segunda edição do “Sem Palavras”, que será lançado no início de Novembro, em um sábado logo na primeira semana, em formato e-book. “Tô preparando o terreno para lançar o livro em formato físico, porque essa primeira tiragem está quase esgotada. Em breve, seu livro será peça de colecionador”, nos instiga dizendo.
Larissa Mundim como leitora e suas influências literárias
Busco sair um pouco da Larissa escritora, e pergunto sobre seu lado leitora. Ela tira os óculos e os coloca sobre a mesa. “Então, quais são os autores que mais te influenciaram durante sua jornada literária?”, pergunto, curiosa. “Legal, você é uma leitora?”, com maestria da jornalista que é, inverte o jogo e nos coloca em um bate bola descontraído, daqueles que se tem durante um cafezinho da tarde com a família.
Quando questionada sobre os autores, a escritora nos relata seu apreço pelos livros desde sua infância. A adolescência foi marcada por uma vasta literatura infanto-juvenil, destacando com carinho Ganymédes José. “Um livro que me transformou e me transtornou foi o Macunaíma”, afirma com excitação. Logo depois, caiu em uma seara de Clarice Lispector e seu fluxo de consciência. Com empolgação, repete a lista que é, em suas próprias palavras, sensacional. Patrícia Melo, Cíntia Moscovich, Adriana Lisboa, Sérgio Santana são os que lhe tiraram a adjetivo sensacional da boca.
Existe, de fato, Literatura Goiana?
Chegando ao fim da entrevista, pergunto sobre a literatura goiana. Realmente existe? Ela acredita que sim e fala sobre a importância da identidade, sem pasteurização. Em algum ponto da resposta, usa sua filha como exemplo e pergunto sobre ela. Aos 11 anos, não tem acesso a todas as obras de sua mãe, devido ao conteúdo adulto. “No livro ‘Agora eu te amo’, na página 106, tem um encarte absolutamente para adultos. Ela fica esperando alcançar determinada idade para poder abrir a página”, ri enquanto se levanta para pegar o livro e nos mostrar. Pega vários e coloca sobre nossas mãos, folheamos com cuidado para não estragar as capas socadas com tempero, revelando a singularidade única de Nega Lilu.
As capas eram de cor pastel, com relevo e textura, devido aos temperos socados. Orégano, ervas finas, alecrim, açafrão eram o que ilustrava as capas dos livros de Larissa. A entrevista termina da forma que começou, saio de lá feliz, tecida na esperança de que a literatura goiana não só existe, como também faz existir.



Incrível!
Fico imaginando a Larissa Mundim como aquele tipo de pessoa que você fica com os olhos brilhando de como ela é incrível.
Excelente texto, como sempre sua visão ampla e peculiar do mundo consegue prender o leitor seja falando de algo legal ou uma tampinha de refrigerante.
Giovanna tem futuro
👏👏👏👏
❤️
Te amo
Melhor escritora goiana não disse qual