Entrevista: Adelice Barros e o refúgio nas letras
- Lucas Humberto
- 26 de mai. de 2018
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2018

Passar pela segurança do condomínio foi definitivamente a parte mais complicada. Naquela tarde de sexta-feira, 15 de setembro, havia um sol para cada pessoa em Goiânia, típico do período do ano na cidade. Depois disso encontrar a casa deveria ter sido a parte fácil, mal sabia o motorista que conduzia o carro que o Condomínio Alphaville Flamboyant por si só é quase um bairro considerado grande na capital do pequi. Parecia estar em outro mundo: atravessado um portal simbólico que me levaria diretamente para os braços da literatura. O silêncio chamava atenção, a grama verde e as grandes casas pareciam ser o cenário perfeito para a mais bela obra literária. A tranquilidade era quase palpável, não se ouvia uma buzina sequer, parecia um fragmento a parte do mundo real.
Em uma área externa que contemplava a visão de uma piscina que parecia ter acabado se ser limpa, Adelice da Silveira Barros nos recebeu. Goiana nascida em Caçu, Adelice é uma escritora que detém o prêmio Alejandro J. Cabassa, da União Brasileira de Escritores e Colemar Natal e Silva da Academia Goiana de Letras, a Medalha Harry Laus e outras premiações. Possui onze livros já publicados.
Sentamo-nos à mesa de vidro, a cadeira parecia anatômica ao corpo de qualquer pessoa, subitamente o calor sumiu, talvez tenha sido o olhar para a piscina azul como o céu ou a grama verde como uma esmeralda. Adelice se sentou e espalhou vários livros sobre a mesa.
Adelice usava roupas simples, uma sandália baixa e óculos escuros em decorrência de uma cirurgia. Enquanto nos acomodávamos, o silêncio ecoou pelo ambiente por alguns segundos. Talvez seria possível passar horas lendo, escrevendo ou conversando sem que houvesse sequer alguma interferência naquele local. Uma luz natural banhava o ambiente quando Adelice sorriu como quem diz: vamos começar?
Incitada pelos questionamentos sobre sua inserção no meio literário e após uma curta reflexão, Adelice conta que teve uma avidez pelo meio literário bem cedo. Desde pequena foi incentivada por professores que logo viram nela uma grande facilidade em redigir e criar principalmente para o mundo ficcional. A escritora relata também que passou por certo período de rejeição à ideia, mas a parte ficcionista de seu ser nunca deixou de existir: "durante um certo tempo descartei [...], mas é engraçado porque era assim, em uma viagem de carro ou em uma situação de perigo, por exemplo, eu pensava 'ai meu Deus, não vou deixar nada escrito?'".
Rapidamente mudamos de assunto e com um pesar na voz, Adelice aponta suas impressões sobre o mercado atual de literatura no Brasil, comparando com o mercado musical. "Ao mesmo tempo em que o brasileiro é muito ligado à música, o hábito da leitura aqui é muito deficiente. Eu acho que as escolas tentam estimular, mas é um caminho muito difícil." Apresento a pesquisa realizada pelo Ibope no ano de 2016 que chegou aos resultados que 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro. Quase incrédula com os números, Adelice revela ter o hábito de observar pessoas lendo durante o trajeto de viagens no exterior, fato que não encontra no Brasil com tanta facilidade.
O estilo e a influência literária
No romance Barrabás, Adelice assume a visão de um homem que vive atormentado por algo que fez no passado. Com uma vida repleta de "nãos" parte em uma viagem para descobrir sua identidade e talvez se livrar do pesar que o atormenta há anos. Em seu conto Holocausto presente no livro Camumbembe, é narrada a história de uma pré-adolescente pobre e de certa forma desassistida que é perseguida por um homem velho que a estupra e a afasta da família.
Nas obras citadas e em muitas outras é possível ver o uso dos flashforwards - a interrupção de uma sequência cronológica narrativa pela interpolação de eventos ocorridos posteriormente. "Eu não gosto de fazer uma sequência muito linear, quando eu canso de falar daquilo eu mudo para outra coisa."
Adelice também é cronista do Jornal O Popular, mas é enfática em dizer que prefere escrever ficção, entretanto considera as crônicas como extensão da sua literatura.
"Eu prefiro a ficção, acho muito mais simples, porque a não-ficção requer mais pesquisa, você precisa ser objetivo, não pode publicar no jornal uma inverdade. A ficção me deixa mais livre."
Quando questionada sobre os autores que mais a influenciaram mostrou-se pensativa como quem busca fundo na mente algum nome entre tantos. "Toda leitura te influencia, não há como escrever sem ler, mas eu não sei algum autor [que possa ter influenciado] ... talvez Gabriel Garcia Márquez."
Em Barrabás o personagem central faz uma viagem em busca de sua identidade. "Parece que a vida é uma viagem, não é? A gente não sabe muito explicar, eu acho que os críticos sabem muito mais da obra da gente do que nós mesmos, porque vamos no impulso. Às vezes nas minhas jornadas eu até observo isso, meus amigos sempre falam "você não está anotando nada!", e eu respondo, "mas eu não preciso, eu preciso é da emoção, a vida é uma viagem." Ainda sobre as viagens na sua obra e na sua vida, Adelice estabelece íntima relação entre o plano literário e o real: "Vivemos no plano real e no imaginário do qual a escrita deriva. Se no plano físico não nos é permitido avançar ou retroceder, no imaginário, temos todas as liberdades. Podemos nos locomover em todas as direções, avançando ou retrocedendo. Viajando, portanto."
A influência pessoal na literatura
Entre os temas mais comuns da obra de Adelice está a infância. Sobre o quanto de si há em sua literatura, a escritora não consegue definir, justamente por não conseguir separar o personagem do escritor.
"Sem querer você acaba usando coisas que te marcaram, sejam positivas ou negativas."
Com um tom de carinho grande, menciona a professora, estudiosa da literatura goiana e também escritora Vera Tietzmann. "Depois que eu conheci a Vera, acho que nunca mais publiquei nada que não tivesse passado por ela, realmente eu confio muito em sua opinião."
O conto Um tema, por caridade mostra um escritor que passa por muitas dificuldades de ter ideias. Indagada sobre esse bloqueio de criação, Adelice olha por poucos segundos para seus livros que estão espalhados na mesa de vidro e responde: "Ultimamente até que não, mas é horrível você acordar de manhã, que é o horário em que eu mais gosto de escrever, e ter o tempo, mas não ter o tema. Isso realmente para o escritor, pelo menos para mim, é angustiante."
Enquanto tomávamos um copo d'água, um livro chamou atenção, já que destoou por ser maior em relação aos demais. Se tratava de um livro infanto-juvenil escrito por Adelice. Repentinamente, aquilo havia deixado de ser uma entrevista para dar lugar a um bom bate-papo sobre a recente polêmica do Queermuseu - exposição do Santander Cultural cancelada após sofrer críticas nas redes sociais por pessoas e instituições que alegaram se tratar de obras com apologia à pedofilia, zoofilia e blasfêmia a símbolos cristãos. Sobre o assunto, Adelice opina: "Eu tenho achado que está faltando senso e cuidado nas pessoas que estão lidando com a arte, principalmente aquela que envolve criança. Não precisaria de censura se houvesse senso."
Adelice, então, contou que apesar de ser uma experiência interessante escrever para o público infantil, sua grande preferência é a literatura voltada para o público adulto.
Questionei sobre a obra mais difícil de ser escrita. Adelice para por alguns segundos e volta o olhar para mesa de vidro em que seus livros estão espalhados. No sofá ao lado seu cachorro respira fundo e levanta. A escritora respira fundo e responde que se trata do livro Avesso da Vida: "Nesse livro eu abordo sobre a dependência química: drogas, bebidas e até mesmo a questão do celular, internet, essas coisas. É um livro que, ao mesmo tempo que é para jovens, é bem pesado, foi difícil de escrever. É interessante que às vezes a obra manda na gente, no romance Mesa dos Inocentes, a Laura começa sendo a bruxa, mas no decorrer da obra ela vai ficando tão humana que eu vou encontrando justificativas para o que ela faz. No fim, eu deixei para o leitor decidir o desfecho, mas foi também difícil de escrever, houveram partes pesadas."
Quando o assunto é a sua realização como escritora, Adelice declara que ainda não escreveu o "livro da sua vida". A entrevista termina da mesma forma que começou, com um sorriso no rosto de uma escritora goiana que exala paixão pelo que faz. Me despedi e fui até a saída do condomínio, senti novamente atravessar um portal simbólico que me levaria de volta para os braços do mundo real, a tranquilidade não era mais a mesma e o sol brilhava forte. Respirei fundo antes de sair e quando cheguei ao ponto de ônibus, abri um dos livros que carregava na mochila e senti novamente o frescor da área externa da casa de Adelice. A literatura é seu próprio mundo e nos acolhe da realidade burocrática, difícil e dura. Bem, como uma professora que tive uns anos atrás costuma dizer: antes arte do que nunca.



adorei!